Jogos ficcionais como máscaras em obras de Clarice Lispector
Palavras-chave:
Lispector, Ficcionalidade, IroniaResumo
A literatura preocupada com problemas sociais, sobretudo relacionados às classes mais pobres, nem sempre lhes deu a voz. O narrador, quando usa a primeira pessoa, quase sempre está em uma condição social que permite a ele escrever. Na terceira pessoa, confunde-se com a voz do autor. Clarice Lispector, muitas vezes acusada de fugir de temas sociais, reconhece, em A hora da estrela, o paradoxo que reside na literatura voltada para o social. E constrói uma interessante máscara ficcional valendo-se deste paradoxo. Ela já estabelecera como máscara a possibilidade de falar da própria escritura, sobretudo em Água viva, quando faz da primeira pessoa um modo de mostrar-se como escritora e narradora. Trata-se de um exercício extremo de literatura autorreflexiva, ou de assimilação do autor pelo narrador. A ironia, em A hora da estrela, constitui um recurso de que a autora se vale como forma não apenas de responder a quem criticava sua estética introspectiva, como também de demonstrar as possibilidades de mascaramento suscitadas pelos jogos ficcionais. Aqui, as vozes do narrador e a do escritor ora se confundem, ora se afastam, mas a personagem que motiva a denúncia social permanece em silêncio.
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