Jogos ficcionais como máscaras em obras de Clarice Lispector

Autores

Palavras-chave:

Lispector, Ficcionalidade, Ironia

Resumo

A literatura preocupada com problemas sociais, sobretudo relacionados às classes mais pobres, nem sempre lhes deu a voz. O narrador, quando usa a primeira pessoa, quase sempre está em uma condição social que permite a ele escrever. Na terceira pessoa, confunde-se com a voz do autor. Clarice Lispector, muitas vezes acusada de fugir de temas sociais, reconhece, em A hora da estrela, o paradoxo que reside na literatura voltada para o social. E constrói uma interessante máscara ficcional valendo-se deste paradoxo. Ela já estabelecera como máscara a possibilidade de falar da própria escritura, sobretudo em Água viva, quando faz da primeira pessoa um modo de mostrar-se como escritora e narradora. Trata-se de um exercício extremo de literatura autorreflexiva, ou de assimilação do autor pelo narrador. A ironia, em A hora da estrela, constitui um recurso de que a autora se vale como forma não apenas de responder a quem criticava sua estética introspectiva, como também de demonstrar as possibilidades de mascaramento suscitadas pelos jogos ficcionais. Aqui, as vozes do narrador e a do escritor ora se confundem, ora se afastam, mas a personagem que motiva a denúncia social permanece em silêncio.

Biografia do Autor

Edson Ribeiro da Silva, Universidade Estadual Paulista UNESP

Pós-doutor em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Estadual de Londrina (2015). Doutor em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Estadual de Londrina (2010). Mestre em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina (2005). Possui graduação em Letras (1993) e especialização em Língua Portuguesa e Literatura (1998) pela Fundação Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Jandaia do Sul. Atualmente é professor de línguas portuguesa e inglesa na rede pública estadual de ensino. Professor no curso de Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade, em Curitiba, com ênfase em estudos de escrita de si, autobiografia, autoficção e estética literária. Também foi professor de leitura e produção de textos no curso de Letras da mesma universidade. Trabalha em escola particular de apoio escolar e de cursos preparatórios. Possui experiência na área de Letras, com ênfase tanto na área de linguística quanto na de literatura. 

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Publicado

30-06-2014

Como Citar

Ribeiro da Silva, E. (2014). Jogos ficcionais como máscaras em obras de Clarice Lispector . Patrimônio E Memória, 10(1), 222–243. Recuperado de https://pem.assis.unesp.br/index.php/pem/article/view/3557

Edição

Seção

Artigos Livres