Para além da ego-história
memoriais acadêmicos como fontes de pesquisa autobiográfica
Resumo
No Brasil, o memorial acadêmico é um relato crítico da trajetória cultural e intelectual de um docente universitário, exigido em concursos públicos de progressão de carreira, que remonta ao Exposé des titres et travaux scientifiques, característico da carreira acadêmica francesa. Trata-se de uma manifestação privilegiada da escrita autobiográfica na qual se mesclam a trajetória pessoal e a intelectual, caracterizando-se como um dos raros momentos no qual é legítima a fala do intelectual sobre si mesmo. Embora identificado com diferentes rótulos, como ego-história, escrita de si ou autoetnografia, por exemplo, a escrita autobiográfica do intelectual, pouco estudada na tradição brasileira, permite identificar determinações e configurações normativas do discurso acadêmico-científico, assim como uma multiplicidade de identidades e referências que se afirmam no processo narrativo. Em linhas gerais, os memoriais acadêmicos apresentam a dupla dimensão do discurso institucional e burocrático e da narrativa pessoal e memorialística, de modo que é possível identificar um ethos discursivo que oscila entre a abordagem objetivada de natureza cartesiana ou o enfoque subjetivante da perspectiva hermenêutica, caracterizando-os como fonte rica e polissêmica.
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