Pai Tertuliano, Vó Astrogilda e Pingo, o Guardião

de Memórias Familiares a Patrimônio Cultural no Quilombo de Vargem Grande no Rio de Janeiro (RJ)

Autores

Palavras-chave:

Quilombo, Herança familiar, Patrimônio cultural, Materialidade, Imaterialidade

Resumo

Em setembro de 2014, a Fundação Cultural Palmares (FCP) entregou a certidão de reconhecimento como comunidade remanescente de quilombolas aos moradores da Serra de Vargem Grande, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. No pedido de reconhecimento, elaborado pela família que lidera o processo, figura como parte importante da sua história a existência de um centro de umbanda espírita, chefiado pela falecida avó Astrogilda. O guia espiritual do terreiro era Pai Tertuliano, um preto velho que se tornou referência em Vargem Grande, muito além do círculo familiar. Os objetos litúrgicos do desativado terreiro permanecem sob custódia familiar, oferecendo um suporte material para suas memórias e desempenhando hoje uma função de autoconsciência familiar e coletiva. Em face do novo horizonte de direitos, interessa entender o trânsito de uma herança familiar para o âmbito da política e da visibilidade, contemplando patrimônio como uma categoria que estabelece mediações entre diversos domínios, social e simbolicamente construídos.

Biografia do Autor

Luz Stella Rodríguez Cáceres, Universidade Estadual Paulista UNESP

Luz Stella Rodríguez Cáceres é antropóloga pela Universidade Nacional da Colômbia; é mestre e doutora em Geografia Humana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. No seu país de origem se iniciou na Antropologia a partir da pesquisa das relações inter-étnicas e territoriais e os conflitos ambientais na Costa Pacífica da Colômbia. Dita pesquisa foi desenvolvida graças ao Prêmio Melhores Propostas sobre Convivência e Paz concedido pela Universidade de Antioquía e COLCIENCIAS. No seu mestrado, a pesquisadora se aprofundou na problemática das comunidades negras da Colômbia e das remanescentes de quilombolas do Brasil, comparando as políticas públicas de demarcação de terras em ambos países. Durante o doutorado, ela se debruçou sobre o espaço urbano de Rio de Janeiro, onde a questão quilombola se interligava com a problemática patrimonial e ambiental, pesquisando os conflitos existentes entre as políticas públicas. Apoiada por uma bolsa da FAPERJ, a pesquisadora vinculou-se ao Laboratório de Antropologia da Arquitetura e os Espaços LAARES no Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Sociologia do IFCS/UFRJ

Referências

ARONI, Bruno Oliveira. Por uma etnologia dos artefactos: arte cosmológica, conceitos mitológicos. Revista Proa, n. 2, v. 1, p. 1-27, 2010.

CANANI, Aline. Sapiezinskas Krás Borges. Herança, sacralidade e poder: sobre as diferentes categorias do patrimônio histórico e cultural no Brasil. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 11, n. 23, p. 163-175, jan./jun. 2005.

CAPONE, Stefania. A busca da África no Candomblé: Tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Contracapa, 2009.

CARDOSO Vânia Zikàn. Spirits and Stories in the Crossroads. In: BLANES, Ruy; ESPÍRITO SANTO, Diana. (Orgs.) The social life of spirits. The University of Chicago Press: Chicago, 2014. p. 93-107.

CONCONE, Maria Helena Vias Boas. Caboclos e Pretos Velhos da Umbanda. In: PRANDI, Reginaldo. (Org.) Encantaria Brasileira: O livro dos Mestres, Caboclos e Encantados. Rio de Janeiro: Pallas, 2011. p. 281.

GONÇALVES, José Reginaldo. A magia dos objetos, museus, memória e história. In: PRIORI, Ângelo. (Org.). História, memória e patrimônio. Maringá: Eduem, 2009. p. 65-75.

______. Ressonância, materialidade e subjetividade: as culturas como patrimonio. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 11, n. 23, jan.-jun. 2005.

HEIDEGGER, Martin. Construir, Habitar, Pensar. In: Ensaios e Conferências. Tradução Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2002.

MAFRA, Clara. A arma da cultura e os universalismos parciais. Mana, v. 17, n. 3, p. 607- 624, 2011.

MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia São Paulo: Cosa Naify, 2003.

MERLEAU PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção São Paulo: Martins Fontes, 1994.

NORA, Pierre. 1984. Entre mémoire et histoire: la problématique des lieux. In: NORA, Pierre. (Org.). Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, v. 1, La République. XXIV.

ORTIZ, Renato. A morte branca do feiticeiro negro: Umbanda e sociedade brasileira. São Paulo. Brasiliense, 1978.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.

RABELO, Miriam. Construindo mediações nos circuitos religiosos afro-brasileiros. In: STEIL, Carlos Alberto. (Org.). Cultura, Percepção e Ambiente. Diálogos com Tim Ingold. São Paulo: Terceiro Nome, 2012.

CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade, UNESP: 2006. WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

Downloads

Publicado

30-06-2017

Como Citar

Rodríguez Cáceres, L. S. (2017). Pai Tertuliano, Vó Astrogilda e Pingo, o Guardião: de Memórias Familiares a Patrimônio Cultural no Quilombo de Vargem Grande no Rio de Janeiro (RJ). Patrimônio E Memória, 13(1), 201–226. Recuperado de https://pem.assis.unesp.br/index.php/pem/article/view/3420

Edição

Seção

Artigos Livres